O Congresso Nacional aprovou um projeto que prevê o perdão de dívidas de microempreendedores individuais (MEIs), uma medida que pode beneficiar cerca de 3,6 milhões de pequenos negócios com débitos que somam aproximadamente R$ 12,6 bilhões. A proposta também aumenta o teto de faturamento anual da categoria e permite a contratação de até dois funcionários em certas condições.
Desafios financeiros persistem
Apesar do alívio que a medida pode proporcionar, especialistas alertam que o perdão de dívidas não elimina os problemas que levam os empreendedores a se endividarem. Entre os principais fatores estão a dificuldade de acesso a crédito adequado, a falta de planejamento e a mistura das contas pessoais com as da empresa. Luis Otávio Leal, economista-chefe da G5 Partners, afirma que “programas de renegociação de dívidas tendem apenas a aliviar temporariamente o problema”.
Leal destaca que um dos principais motivos para o endividamento é o uso do dinheiro da empresa para cobrir despesas pessoais. Isso gera um ciclo vicioso, onde o empreendedor precisa recorrer a empréstimos para manter a operação do negócio, comprometendo tanto as finanças pessoais quanto as empresariais.
Empreender por necessidade versus oportunidade
O economista também diferencia empreendimentos abertos por oportunidade daqueles iniciados por necessidade. Os primeiros geralmente são estruturados para atender a uma demanda identificada, enquanto os segundos podem ser criados sem planejamento, como uma solução imediata para gerar renda. “O empreendedorismo por necessidade é visto como um ‘bico’, o que diminui o planejamento e a resiliência”, explica Leal.
Para enfrentar esses desafios, ele sugere que políticas de apoio ao empreendedorismo devem ir além da renegociação de dívidas, incluindo a ampliação do acesso a linhas de crédito subsidiadas e o uso de serviços do Sebrae para qualificação dos microempreendedores.
Antonio Maciel, planejador financeiro, complementa que a primeira medida para organizar as finanças é separar o dinheiro do negócio do dinheiro pessoal. Ele recomenda que o empreendedor trate esses recursos como distintos, mesmo que seja o único proprietário da empresa. “O faturamento não deve ser confundido com o lucro”, alerta Maciel.
Além disso, ele sugere que, em meses de maior faturamento, parte do dinheiro deve ser guardada para compensar eventuais quedas posteriores, e que o controle financeiro deve ser feito em duas frentes: registrando as vendas e despesas da empresa e considerando apenas o dinheiro transferido para a renda pessoal no orçamento doméstico.
Maciel também destaca a importância de identificar sinais de alerta de que as dívidas estão saindo do controle, como depender de crédito caro para cobrir despesas mensais. Ele recomenda que o empreendedor avalie quais compromissos são essenciais para manter a empresa funcionando e quais podem ser renegociados, sempre considerando o custo efetivo total das dívidas.
Por fim, ele enfatiza que a renegociação de dívidas só se torna efetiva quando acompanhada de uma mudança na gestão financeira do negócio. “A renegociação só vira recuperação quando muda a capacidade de pagamento e vem acompanhada de uma correção na gestão”, conclui Maciel.
Fonte original: g1 Economia