O Brasil vive um cenário de subinvestimento em infraestrutura há mais de 20 anos, e o novo governo terá como prioridade a estabilidade fiscal e a alocação de capital para setores como transportes, energia, telecomunicações e saneamento. Essa análise é de especialistas consultados pela Bloomberg Línea.
Claudio Frischtak, presidente da Inter.B Consultoria Internacional de Negócios e ex-consultor do Banco Mundial, destaca que o país enfrenta não apenas a falta de recursos, mas também problemas de eficiência nos projetos. Ele afirma: “Em última instância, precisamos maximizar o retorno dos investimentos para a sociedade”.
Frischtak projeta que, em 2026, o Brasil deve investir cerca de 2,4% do Produto Interno Bruto (PIB) em infraestrutura. No entanto, para atualizar a cobertura desses serviços, seriam necessários investimentos de aproximadamente 4,6% do PIB anualmente por um período de 15 a 20 anos. Atualmente, o país deixa de investir cerca de R$ 270 bilhões por ano nesse setor.
Propostas de Lula e Flávio Bolsonaro
O documento de campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) menciona que o Novo PAC retomou os investimentos em infraestrutura, prevendo R$ 280 bilhões para 2025 e R$ 300 bilhões para 2026, totalizando R$ 1,3 trilhão. O programa também quadruplicou os leilões de rodovias em comparação ao governo anterior.
Por outro lado, Flávio Bolsonaro, candidato do PL, promete R$ 900 bilhões em investimentos em infraestrutura nos próximos quatro anos, abrangendo rodovias, hidrovias, portos e ferrovias. Seu plano inclui a criação de corredores logísticos e a conclusão de projetos como a Ferrogrão e a Transnordestina.
Desafios e barreiras para investimentos
Rafael Souza, pesquisador do FGV CERI, ressalta que a fragilidade fiscal impacta a percepção de risco e os juros, dificultando investimentos de longo prazo. Ele afirma que “a questão fiscal surge da necessidade de uma discussão orçamentária mais efetiva”.
Além disso, a falta de capacitação técnica e a instabilidade regulatória são apontadas como barreiras para atrair investimentos. Frischtak lembra que, apesar da lentidão na modernização da infraestrutura, legislações importantes foram aprovadas nos últimos anos, como a Nova Lei dos Portos e o Novo Marco do Saneamento.
Os investidores estrangeiros também destacam a necessidade de recuperação do investment grade e a adesão do Brasil à OCDE como fatores essenciais para a alocação de capital. Frischtak observa que “o maior obstáculo para a transformação da infraestrutura no país reside na macroeconomia”.
Por fim, Souza enfatiza que é crucial não apenas saber quanto será gasto, mas também a qualidade desses gastos, aprendendo com os erros do passado para garantir um futuro mais eficiente na infraestrutura brasileira.
Fonte original: Bloomberg Línea