A concentração das ações no Ibovespa aumentou nos últimos anos, subindo de 45,95% em outubro de 2021 para 54,18% em 22 de outubro de 2026. Esse percentual chegou a 54,91% no dia 5 de outubro, o maior nível desde dezembro de 2019, conforme levantamento da Elos Ayta.
O desempenho do Ibovespa até 22 de outubro de 2026 foi positivo, com uma alta acumulada de 27,14%. Esse crescimento foi impulsionado principalmente pelas ações da Petrobras, que apresentaram uma valorização de 100,4% nas ordinárias (PETR3) e 88,3% nas preferenciais (PETR4). Outras empresas que contribuíram para a alta foram o Itaú (ITUB4), com 24%, e a Axia Energia (AXIA3), com 18,16%. Em contrapartida, a Vale (VALE3) teve uma queda de 15% no mesmo período.
Como é calculado o peso das ações
Atualmente, o Ibovespa é composto por 76 ativos de 74 empresas, mas a participação de cada ação varia conforme sua ponderação. Isso significa que a valorização de ações com maior peso pode sustentar o índice, mesmo que outras ações estejam em queda. João Vitor Araujo Saccardo, head de renda variável da Convexa Investimentos, explica que a metodologia considera o valor de mercado das ações em circulação, conhecido como free float, e estabelece limites de participação, o que pode resultar em uma empresa com maior valor de mercado tendo um peso menor no índice.
Bruno Nahon, planejador financeiro certificado pela Planejar, ressalta que a concentração não torna o Ibovespa um indicador negativo, mas exige cautela ao interpretar seu desempenho como reflexo de todo o mercado acionário brasileiro. Essa questão é especialmente relevante para investidores em fundos de índice (ETFs) que replicam o Ibovespa, pois, apesar de incluir diversas ações, esses produtos podem expor uma parte significativa dos recursos a poucas empresas e setores, limitando a diversificação.
Fatores que influenciam a concentração
A concentração no Ibovespa é resultado tanto da composição do índice quanto do desempenho das empresas ao longo do tempo. O índice brasileiro tem uma alta participação de companhias de commodities, como Petrobras e Vale, além de bancos e empresas de energia elétrica e saneamento. Nahon observa que empresas como Itaú e Petrobras aumentaram sua participação nos últimos anos, enquanto a Vale, Magazine Luiza e Ambev perderam espaço.
Para Saccardo, as mudanças na concentração estão mais relacionadas aos preços das ações do que a transformações na economia. Ele destaca que, para que empresas como Vale e Petrobras aumentem sua participação, elas precisam ter um desempenho superior ao dos demais componentes do índice. Nahon também aponta que os juros elevados no Brasil pressionam empresas dependentes de crédito e consumo, favorecendo bancos consolidados.
O índice Ibovespa passou de 65 ativos em setembro de 2018 para 91 em setembro de 2021 e, atualmente, conta com 76 ativos. A entrada e saída de papéis pode alterar a distribuição dos pesos no índice.
Quanto ao futuro da concentração, Nahon acredita que ela deve persistir enquanto os juros permanecerem altos e o mercado de capitais continuar fechado a novas ofertas de ações. Ele não vê, no curto prazo, catalisadores claros para uma desconcentração significativa. Um ciclo de queda dos juros poderia favorecer a reprecificação de empresas ligadas à economia doméstica, e a reabertura do mercado de ofertas de ações permitiria a entrada de novas companhias e setores na Bolsa.
Além disso, a possível inclusão de BDRs de empresas brasileiras negociadas no exterior no índice, a partir de 2027, poderia ampliar a diversidade de companhias representadas, embora não garanta uma redução da concentração.
Fonte original: O Tempo